A História do Portal de Videoaulas da Universidade Federal Fluminense

 

A história do Portal de Videoaulas da UFF é também a história de como a universidade pública brasileira soube dialogar com os desafios trazidos pela tecnologia digital. Criado em meados dos anos 2000, o projeto nasceu em um momento em que a internet se tornava cada vez mais acessível à população e passava a ser vista como uma ferramenta poderosa de aprendizado, atualização e troca de conhecimentos.

  

O surgimento da ideia (2005–2006)

O Portal começou a tomar forma em 2005, a partir do incômodo de três estudantes de Medicina da Universidade Federal Fluminense - Vitor Vidal Zenha, Igor Dutra Braz e Letícia Cristina Cardoso Fontes dos Santos - com as condições do local de oferecimento do ensino de Anatomia na ocasião. Os alunos queriam gravar as aulas práticas em DVDs para distribuí-las entre os colegas de classe, e minimizar o estresse no ambiente insalubre a que estavam submetidos.

Na busca de apoio institucional para dar uma solução ao problema, encontraram o professor Ismar Araujo de Moraes, do Departamento de Fisiologia e Farmacologia, que foi sensível a situação, e propôs a criação de um espaço virtual onde poderiam disponibilizar os materiais gravados, não só para a turma de Medicina, mas para toda a comunidade acadêmica e a sociedade em geral – na forma de uma ação de extensão universitária.

À época, a ideia era ousada. O YouTube ainda estava em seus primeiros anos de existência, e a noção de utilizar a internet como ambiente de ensino ainda não era consolidada no Brasil. Os recursos eram escassos: o grupo não contava com bolsas ou financiamento, mas tinha clareza de que a proposta poderia atender a uma demanda crescente por conteúdos de qualidade que pudessem ser acessados a qualquer tempo e lugar.

A primeira conquista veio em 2006, quando o projeto foi aprovado na Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) com o título inicial “Programa de desenvolvimento da infraestrutura e capacidade técnica, com geração de instrumentos aplicáveis ao ensino de Fisiologia à distância”. Vitor passou a ser bolsista, tendo Igor e Letícia como colaboradores. Essa etapa foi fundamental para garantir as condições mínimas para que o sonho se transformasse em realidade.

No ano seguinte, o projeto de extensão ampliou as áreas de conhecimento e passou a ser intitulado “Programa de desenvolvimento da infraestrutura e capacidade técnica, com geração de instrumentos aplicáveis ao ensino de Fisiologia, Farmacologia e Semiologia à distância”, tendo como bolsista o acadêmico Leonardo de Souza do Nascimento.

 

A criação do Grupo Núcleo Digital (2007)

Para consolidar o trabalho, em 2007, foi criado o Grupo Núcleo Digital, inicialmente formado pelos três estudantes pioneiros e mais cinco colegas de Medicina: Caroline de Assumpção Isidoro, Fernanda Henriques Pinto, Leonardo Souza do Nascimento, Lucas Duarte Righi e Marcus Vinícius de Brito Lontra. O grupo teve apoio do PROMED, programa da Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com a UFF, que ofereceu bolsas para ampliar a equipe e dar continuidade às atividades.

Além dos discentes, técnicos-administrativos do antigo Núcleo de Tecnologia da UFF (NTI-UFF) — João Fanara, Thiago Petra e Pedro Rocha — contribuíram de forma essencial para a estruturação tecnológica do Portal. Essa colaboração entre estudantes, professores e técnicos foi um dos pilares do projeto desde o início, mostrando a importância do trabalho coletivo na construção de iniciativas inovadoras.

 

Expansão e reconhecimento nacional (2008–2011)

Em 2008, o Portal de Videoaulas deu um salto significativo ao integrar a Rede de Pesquisa em Medicina Assistida por Computação Científica do Rio de Janeiro (MACC-Rio), uma iniciativa proposta pelo Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC/MCT), com apoio financeiro da FAPERJ. O projeto passou a fazer parte da área de Ambientes Virtuais Colaborativos da rede e recebeu recursos para aquisição de equipamentos e mobiliário, fortalecendo sua infraestrutura.

No mesmo ano, a Secretaria de Educação a Distância do MEC convidou o Portal para integrar dois grandes projetos nacionais: o Banco Internacional de Objetos Educacionais e o Portal do Professor. Essas parcerias representaram um reconhecimento oficial da relevância do trabalho desenvolvido na UFF e ampliaram o alcance das videoaulas para professores e estudantes de todo o país.

 

Consolidação e uso do YouTube (2012–2015)

Entre 2012 e 2015, ocorreu uma mudança estratégica: parte do acervo foi transferida para o YouTube. A decisão trouxe diversas vantagens — maior velocidade de carregamento dos vídeos, melhor indexação em buscadores, facilidade de compartilhamento e aumento da visibilidade nacional e internacional.

O impacto foi imediato. O número de acessos cresceu de forma acelerada, confirmando que a internet havia se tornado, de fato, um espaço privilegiado para a educação a distância e para ações extensionistas.

 

O papel durante a pandemia de Covid-19 (2020)

O ano de 2020 foi um marco não apenas para a história mundial, mas também para o Portal de Videoaulas da UFF. Com a chegada da pandemia de Covid-19 e a suspensão das aulas presenciais em todo o país, estudantes e professores precisaram se adaptar ao ensino remoto emergencial. Nesse contexto, o Portal assumiu papel estratégico: tornou-se um dos principais suportes para o ensino online dentro e fora da UFF.

No início de 2020, o Portal já havia atingido 1 milhão de usuários que acessaram a ferramenta (BRITO et al., 2020). Em março desse ano, com a declaração de pandemia de COVID-19 pela OMS, o número de acessos disparou (MORAES et al., 2020). O acervo, que já estava consolidado, ofereceu conteúdos de qualidade que auxiliaram alunos e professores a enfrentarem as dificuldades impostas pelo isolamento social.

 

Alcance internacional e interação com o público

Ao longo dos anos, o Portal expandiu sua audiência. Embora a maioria dos acessos fosse do Brasil, também se destacaram usuários de países de língua portuguesa, como Portugal e Angola, além de países da América Latina (Argentina, México, Peru, Colômbia, Bolívia) e até dos Estados Unidos.

A interação com o público se tornou uma das marcas do projeto. Uma análise dos comentários registrados no canal do YouTube (MORAES et al., 2023), entre 2014 e 2023, revelou que a maior parte deles foi elogiosa, havendo poucas críticas e dúvidas relacionados ao conteúdo das aulas, o que demonstra a natureza dialógica do Portal.

Além disso, MORAES et al. (2024) identificou que, apesar da maior parte do acervo do Portal estivesse relacionada com a área de Ciências Exatas, os conteúdos mais buscados se concentraram, entre 2022 e 2024, na área da Saúde e Segurança Ambiental – destacando-se temas dentro de Anatomia e Fisiologia Humana e Animal, Nutrição e Biossegurança.

 

Premiações

O esforço coletivo das equipes envolvidas ao longo de duas décadas rendeu frutos. O Portal foi duas vezes agraciado com o Prêmio Josué de Castro (em 2010 e 2015), uma importante distinção que reconhece iniciativas voltadas para a melhoria da educação e da extensão universitária no Brasil.

 

Impacto extensionista e legado

Mais do que um repositório de conteúdos, o Portal de Videoaulas da UFF representa um instrumento de extensão universitária. Ao oferecer materiais gratuitos e acessíveis para a comunidade, a iniciativa cumpre o papel de democratizar o conhecimento produzido na universidade, atendendo alunos, profissionais de diferentes áreas e a população em geral.

Até 2025, o Portal já havia contado com 12 bolsistas de cursos diversos — Medicina, Medicina Veterinária, Biomedicina, Farmácia e Estudos de Mídias —, além da contribuição de docentes e técnicos que mantiveram o compromisso de aprimorar continuamente a qualidade técnica e audiovisual das videoaulas.

Sua característica extensionista reafirma, enfim, o compromisso da UFF com a função social da universidade pública: produzir, difundir e compartilhar saberes de interesse coletivo, ultrapassando fronteiras geográficas e sociais.

 

Conclusão

O Portal de Videoaulas da UFF consolidou-se como uma experiência de sucesso na interface entre tecnologia, ensino e extensão universitária. Desde sua criação em 2005, a iniciativa passou por diferentes fases — da ideia pioneira de três estudantes e um professor até o reconhecimento nacional e internacional como ferramenta pedagógica de grande relevância.

Com mais de 7,3 milhões de visualizações em 2025, presença em projetos do MEC, inserção em redes de pesquisa, premiações e um acervo em constante expansão, o Portal firmou o nome da UFF como referência no cenário nacional em inovação educacional.

Seu legado é duplo: de um lado, reafirma a importância da colaboração entre alunos, professores e técnicos na criação de soluções criativas; de outro, mostra como a universidade pública, quando comprometida com a sociedade, pode oferecer ferramentas de grande impacto social, educativo e cultural.